O Brasil tem desemprego em queda, mas empresas seguem com cargos vazios. O motivo não é falta de gente, e sim falta de qualificação em áreas bem específicas.
Existem empregos que não exigem diploma universitário e que acumulam vagas em aberto no país inteiro. Parece contradição, mas os números explicam. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros têm dificuldade para contratar profissionais qualificados. A média global é de 72%.
Ou seja, o Brasil está oito pontos acima do resto do mundo nesse gargalo. O estudo ouviu mais de 39 mil empregadores em 41 países. No recorte nacional, foram 1.020 entrevistas.
Além disso, o índice brasileiro está travado no alto há quatro anos. Foram 80% em 2023, 80% em 2024, 81% em 2025 e 80% agora. Vale lembrar que São Paulo lidera o ranking nacional, com 88%. Em seguida vêm Minas Gerais, com 85%, e Rio de Janeiro, com 80%.
Por que sobram vagas se tanta gente procura emprego?
A resposta curta é qualificação. O IBGE registrou taxa anual de desocupação de 5,6% em 2025. Foi a menor da série histórica iniciada em 2012.
Mesmo assim, empresas não conseguem preencher funções que pedem treinamento específico. Na indústria, o quadro é ainda mais claro. Dados da Confederação Nacional da Indústria apontam que a falta de profissionais qualificados atinge cerca de 23% das indústrias brasileiras. Trata-se do maior nível já registrado pela entidade.
Wilma Dal Col, diretora de Recursos Humanos do ManpowerGroup, resumiu o cenário:
A escassez de talentos deixou de ser um fenômeno pontual
Wilma Dal Col, diretora de RH do ManpowerGroup, em declaração à CNN Brasil.
Agora confira 12 ocupações com alta demanda, formação rápida e nenhuma exigência de faculdade.
1. Motorista de caminhão
Esse é o caso mais dramático da lista. Entidades do setor estimam um déficit de cerca de 120 mil motoristas profissionais no Brasil.
Pesquisa da Confederação Nacional do Transporte mostra que 65,1% das transportadoras citam a falta de motoristas como principal dificuldade de contratação. Outras 44,6% têm vagas em aberto agora.
Um levantamento da NTC&Logística de março de 2026 vai além. Nele, 88% das empresas relatam dificuldade para contratar. A média chega a oito caminhões parados por empresa.
O motivo é demográfico. A idade média dos caminhoneiros brasileiros chegou a 45,3 anos. Além disso, apenas 9,5% dos profissionais têm menos de 30 anos.
2. Eletricista
Instalação, manutenção e reparo de sistemas elétricos viraram funções disputadíssimas. A falta de eletricistas qualificados pressiona obras, indústrias, distribuição de energia e o mercado solar ao mesmo tempo.
A dificuldade é tão grande que empresas passaram a formar os próprios profissionais. Em 2025, o Grupo Equatorial anunciou 400 vagas gratuitas para o Programa Escola de Eletricistas, em parceria com o SENAI. O curso abrange sete estados.
Segundo mapeamento feito pela empresa em fevereiro de 2025, o programa já havia formado 1.607 pessoas desde 2022. Dessas, 833 foram contratadas. Inclusive, quando concessionárias precisam criar escola própria, o recado fica bem claro.
3. Técnico em enfermagem
Aqui entra um detalhe importante. A profissão exige curso técnico regulamentado, com 1.200 horas de formação teórico-prática mais 400 horas de estágio supervisionado, conforme COFEN e MEC. Faculdade, porém, não é pré-requisito.
O peso da função aparece nos rankings. Na lista Empregos em Alta 2026, do LinkedIn, o técnico de enfermagem ficou em segundo lugar. Só perdeu para engenheiro de inteligência artificial.
A demanda tem base demográfica sólida. De acordo com o IBGE, mais de 25% da população brasileira será formada por idosos até 2043. Por outro lado, dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que o setor de saúde cresceu cerca de 12% nos últimos anos.
4. Soldador
Solda é aquela habilidade que ninguém aprende por acaso. Ainda assim, a indústria não consegue viver sem ela.
O soldador aparece de forma recorrente nos programas de qualificação industrial. O SENAI mantém turmas gratuitas voltadas às áreas mais demandadas pela indústria, como soldador, eletricista industrial, mecânico de máquinas e instrumentista industrial.
Grandes empresas também entraram no jogo. Em 2026, a Vale abriu um programa de formação profissional com o SENAI no Espírito Santo, com vagas para soldador, eletricista e mecânico.
5. Instalador de sistemas de energia solar
A energia solar já é a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira. Só perde para as hidrelétricas.
Segundo a ABSOLAR, o setor ultrapassou 2 milhões de empregos gerados no Brasil. A associação projeta ainda mais de 319 mil novos postos em 2026, com investimentos em torno de R$ 31 bilhões.
No entanto, vale um alerta honesto. A própria ABSOLAR aponta desaceleração no ritmo. A potência adicionada caiu 25,6% em 2025, e a projeção para 2026 prevê retração adicional de 7%.
6. Técnico em automação industrial
A modernização das fábricas acelerou a corrida por quem entende de sistemas automatizados. A carência em automação, mecatrônica e processos industriais já reduz a produtividade das empresas.
Não por acaso, o SENAI-MG abriu mais de 5 mil vagas em cursos técnicos presenciais. Entre as formações com maior oferta está justamente Técnico em Automação Industrial.
Os números de empregabilidade explicam a procura. Dados do SENAI-MG apontam 91,2% de chance de contratação para seus formados. Além disso, 92,4% das empresas afirmam preferir esses profissionais.
7. Trabalhador da construção civil
Esse é o setor que talvez mais sofra em silêncio. Levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção mostra que mais de 70% das empresas enfrentam dificuldade para contratar.
Uma pesquisa da Falconi com o Ecossistema Sienge, divulgada pela CBIC em setembro de 2025, reforça o quadro. A falta de mão de obra foi citada por 71% dos respondentes, contra 52% em 2023. O salto em dois anos diz muito.
Por outro lado, o setor segue gerando emprego formal. Só em abril de 2026, a Construção registrou saldo positivo de 23.525 vagas com carteira assinada, segundo o Novo CAGED.
8. Cuidador de idosos
O Brasil envelhece rápido. Segundo o IBGE, a população com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024. O crescimento foi de 53,3%.
Reportagem da revista Exame publicada em abril de 2026 aponta um descompasso claro. Existem mais idosos do que profissionais preparados para cuidar deles. O resultado é mais vagas abertas e maior dificuldade de contratação.
A entrada na área costuma exigir ensino médio completo e curso de qualificação. Instituições como Senac e Centro Paula Souza oferecem essa formação.
9. Técnico em refrigeração e climatização
Ar-condicionado, câmaras frias e sistemas de climatização estão em todo lugar. Consequentemente, quem sabe instalar e consertar esses equipamentos raramente fica parado.
Um levantamento do SENAI feito entre 2021 e 2023 colocou o curso técnico da área em quarto lugar em empregabilidade. A taxa apurada ficou acima de 94%.
O técnico em refrigeração atende residências, comércios, indústrias e hospitais. Portanto, dá para atuar com carteira assinada ou como autônomo.
10. Técnico em segurança do trabalho
Toda empresa com risco operacional precisa desse profissional. Ele acompanha normas regulamentadoras, treina equipes e previne acidentes.
A formação também aparece entre os cursos técnicos com maior oferta de vagas no SENAI-MG. Ou seja, a instituição está ampliando turmas justamente porque a indústria pede.
Vale destacar um dado geral que ajuda a dimensionar o cenário. Segundo pesquisa de egressos do SENAI, mais de 85% dos formados em cursos técnicos estão empregados. Desses, 75% ocupam vagas formais.
11. Mecânico de manutenção industrial
Máquina parada custa caro. Por isso, mecânicos de manutenção e instrumentistas industriais seguem entre as ocupações prioritárias dos programas de formação do SENAI.
Aliás, essas funções aparecem lado a lado com solda e eletricidade industrial nas turmas gratuitas voltadas às demandas da indústria brasileira.
A lógica é simples. Fábricas mais automatizadas quebram de formas mais complexas. Assim, cresce a necessidade de quem sabe diagnosticar e reparar.
12. Atendimento ao cliente e vendas
Nem tudo na lista é chave de fenda. O ManpowerGroup mapeou quais habilidades técnicas estão mais escassas no mercado brasileiro em 2026.
Entre as cinco primeiras aparecem front office e atendimento ao cliente, além de marketing e vendas. As três primeiras posições ficaram com desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial, letramento em IA e tecnologia da informação.
Em outras palavras, sobra vaga também em funções comerciais. Nelas, comunicação e capacidade de negociação pesam bem mais que diploma.
O que essas 12 profissões têm em comum
Todas valorizam habilidade prática, certificação técnica e experiência real acima da graduação. A maioria pode ser acessada por cursos rápidos, muitos deles gratuitos em instituições como SENAI, Senac e escolas técnicas estaduais.
Por fim, um lembrete importante. Salário, estabilidade e volume de vagas variam bastante conforme região, empresa e tipo de contrato. Portanto, pesquise a realidade da sua cidade antes de mudar de carreira.
Converse também com quem já atua na área. Esse papo costuma valer mais que qualquer ranking.
E você, toparia migrar para alguma dessas profissões? Marca aquele amigo que vive dizendo que não acha emprego e conta nos comentários qual dessas 12 mais te surpreendeu.

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