Você jurava que o ursinho ficava triste se dormisse no chão. E se pisasse na linha do piso, alguma desgraça ia acontecer. Calma: a ciência explica.
Existem coisas estranhas que todo mundo fazia quando era criança e que, olhando de fora, parecem completamente sem sentido. Girar até cair no chão, conversar com um boneco de plástico, se recusar a lavar o paninho fedido, ver monstro no armário. O detalhe curioso é que quase nada disso é aleatório. A maior parte desses hábitos de infância tem nome, tem explicação e aparece nos manuais de psicologia do desenvolvimento. Ou seja: você não era um ser humano defeituoso. Você era só uma criança fazendo exatamente o que o cérebro infantil precisa fazer.
Reunimos oito comportamentos que praticamente toda criança já teve, com o que a psicologia diz sobre cada um deles. Prepare-se para se reconhecer em pelo menos cinco.
1. Conversar com os brinquedos como se eles escutassem
Repreender o carrinho que bateu. Pedir desculpa para a boneca que caiu da cama. Alimentar o dinossauro de borracha. Nada disso era loucura, e sim animismo infantil, um conceito estudado por Jean Piaget no chamado período pré-operatório, que vai aproximadamente dos 2 aos 7 anos.
Nessa fase, a criança atribui vida, intenção e sentimento a objetos inanimados. A nuvem fica brava, o sol observa, o brinquedo sente dor. Além disso, esse pensamento vem acompanhado do egocentrismo típico da idade, quando os objetos parecem existir em função dela. Vale lembrar: é uma etapa esperada do desenvolvimento cognitivo, não um sinal de problema.
2. Ter um amigo imaginário (e defender a existência dele)
Aquele amigo que ninguém mais via, mas que tinha nome, cor de cabelo e opinião sobre o jantar. O amigo imaginário é um dos fenômenos mais estudados da infância e, ao contrário do que muito pai já temeu, a literatura psicológica aponta que ele costuma ser comum, saudável e até positivo. Ele aparece com mais frequência entre os 2 e os 6 anos.
Curiosamente, a criança em geral sabe que o amigo não é real. Ela consegue descrevê-lo em detalhes, mas tem consciência de que aquilo saiu da própria imaginação. Especialistas apontam que essa figura funciona como um recurso criativo e emocional, ajudando a lidar com solidão, medo do escuro ou mudanças na rotina, como a chegada de um irmão ou a troca de escola.
O amigo imaginário é uma das formas que a criança tem para expressar sua criatividade
Cecília Rocha, psicóloga e arteterapeuta, em entrevista ao blog Quindim.
3. Andar pela calçada sem pisar nas linhas do chão
Esse é clássico. Pisar na risca do piso significava azar, castigo ou algo terrível que você nunca soube nomear direito. Por outro lado, cumprir o ritual dava uma sensação estranha de controle sobre o mundo.
A psicologia chama isso de pensamento mágico: a crença de que é possível influenciar a realidade por meio de gestos, rituais ou desejos, mesmo sem qualquer relação lógica de causa e efeito. Ele costuma atingir o pico entre os 2 e os 7 anos, justamente quando o pensamento simbólico está se formando. É o mesmo mecanismo por trás da fé absoluta na Fada do Dente e no Papai Noel. Inclusive, boa parte dos adultos carrega restos disso até hoje, na forma de superstição e cábala do time.
4. Não largar o paninho velho por absolutamente nada
O paninho encardido. A fralda desfiada. O ursinho sem um olho. Lavar era quase uma traição. Esse item tem nome técnico: objeto transicional, termo criado pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott.
A ideia é que, quando o bebê começa a perceber que ele e a mãe não são a mesma pessoa, ele elege um objeto que representa aquele conforto quando o cuidador não está por perto. Por isso o apego aumenta na hora de dormir, na primeira semana de escola ou em momentos de medo. Vale destacar que o objeto precisa ser escolhido pela própria criança, não adianta o adulto tentar impor um bichinho mais bonitinho.
Trata-se de um objeto que a criança usa para se sentir segura e confortável
Rosa Maria Mariotto, psicóloga e psicanalista, em entrevista ao blog Quindim.
5. Girar sem parar só para ficar tonto
Rodar no meio da sala até desabar no chão rindo e sem conseguir andar reto. Parecia autossabotagem, mas era pura busca por estímulo. O responsável é o sistema vestibular, localizado no ouvido interno, que detecta movimento, gravidade e equilíbrio.
Crianças costumam adorar girar, balançar, ficar de cabeça para baixo e dar cambalhotas justamente porque essas atividades ativam esse sistema. A tontura acontece porque o líquido dentro das estruturas do ouvido continua em movimento mesmo depois que o corpo para. Em outras palavras: você estava fazendo uma sessão gratuita de integração sensorial no meio da sala de casa.
6. Ter certeza absoluta de que tinha um monstro debaixo da cama
A perna não podia ficar para fora do lençol. O armário entreaberto era uma ameaça direta. O medo do escuro e das criaturas imaginárias é um dos medos mais comuns da infância e costuma aparecer entre os 2 e os 6 anos.
Não é frescura nem manha. Nessa idade, a criança ainda não separa bem fantasia de realidade, então o monstro é, para ela, uma possibilidade concreta. Além disso, a imaginação está em plena explosão criativa, o que ajuda a povoar o quarto de sombras suspeitas. Especialistas apontam que o medo tende a diminuir naturalmente conforme a criança amadurece. No entanto, quando ele atrapalha o sono de forma persistente, vale procurar orientação profissional.
7. Roer as unhas até não sobrar nada
Prova na escola, filme tenso, aula chata: lá ia a unha. O hábito tem nome, onicofagia, e costuma começar por volta dos 4 ou 5 anos de idade.
As causas apontadas na literatura são variadas e incluem ansiedade, estresse, tédio, timidez e até imitação de adultos da família que também roem. Segundo a Dra. Ana Loch, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria, o comportamento tende a ter raiz emocional.
Esse hábito sinaliza, na maioria das vezes, algo de fundo emocional
Dra. Ana Loch, pediatra, em entrevista publicada pelo blog da Droga Raia.
Vale lembrar que especialistas desaconselham punições e truques amargos, porque tendem a aumentar a tensão em vez de resolver.
8. Transformar o sofá em navio, nave e castelo no mesmo dia
A almofada virava escudo. O cabo de vassoura virava espada. O tapete era lava. Esse universo todo tem um nome dentro da obra de Piaget: jogo simbólico, a capacidade de fazer um objeto representar outra coisa.
Estudos apontam que, entre os 4 e os 7 anos, as cenas do faz de conta vão ficando mais organizadas, coerentes e detalhadas, aproximando-se cada vez mais de uma imitação do mundo real. Ou seja: enquanto você “só brincava”, seu cérebro estava treinando abstração, narrativa e representação. Não era perda de tempo, era engenharia mental.
No fim das contas, ninguém era estranho sozinho
A grande sacada é perceber que praticamente todo mundo passou pelas mesmas manias. O paninho, o amigo invisível, o monstro do armário e a linha do chão que não podia ser pisada estavam presentes em infâncias inteiras, em cidades diferentes, em gerações diferentes. Por fim, o que parecia esquisito era, na verdade, o cérebro infantil funcionando exatamente como deveria.
E você, qual dessas manias ainda carrega escondido na vida adulta? Conta nos comentários e marca aquele amigo que definitivamente conversava com os brinquedos.

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