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14 coisas comuns hoje que eram um escândalo há 100 anos

Passar batom na rua, usar calça, tomar sol na praia. Hoje ninguém levanta a sobrancelha para nada disso.

Na década de 1920, porém, qualquer uma dessas atitudes rendia fofoca. Em alguns casos, rendia até dor de cabeça com a polícia.

Este texto reúne coisas comuns hoje que eram um escândalo há 100 anos. Ou seja, hábitos banais, do tipo que você repete sem pensar. Um século atrás, no entanto, eles colocavam qualquer pessoa na berlinda.

Em primeiro lugar, vale registrar um detalhe importante. Essas regras pesavam muito mais sobre as mulheres. Além disso, várias delas iam além do costume: a lei escrevia a proibição preto no branco.

Reunimos 14 exemplos com respaldo histórico. Prepare-se, porque a lista guarda pelo menos uma surpresa que derruba qualquer um.

1. Mulher usar calça comprida

Parece piada, mas a sociedade da época encarava a calça feminina como uma afronta à moral.

A peça carregava um símbolo claro de poder masculino. Por isso, quem a vestia ouvia xingamentos na rua por usar “trajes masculinos”.

Em Paris, por exemplo, uma lei de 1800 autorizava a polícia a prender mulheres de calça em público. Aos poucos, o legislador afrouxou a regra. Novas emendas liberaram a peça, mas só para quem andava de bicicleta ou a cavalo.

Curiosamente, a França só revogou o texto em 2003. Coco Chanel, enquanto isso, já tinha virado o jogo décadas antes e transformado a calça feminina em tendência de moda.

Ou seja: aquela calça que você veste agora já rendeu caso de polícia.

2. Cortar o cabelo curto

O corte bob, também conhecido como “à la garçonne”, virou febre nos anos 1920 e escandalizou meio mundo.

Os cabelos encurtaram aos poucos. Primeiro chegaram na altura do queixo, depois na altura da boca e, por fim, nas orelhas.

O corte carregava tanta rebeldia que criou uma moda de chapéus própria: o cloche. Ele se ajustava totalmente à cabeça e, portanto, não abria espaço para volume por baixo.

Na prática, quem usava cloche anunciava uma coisa só ao mundo: o cabelo curto por baixo.

3. Passar batom em público

Retocar a maquiagem na frente dos outros passava uma imagem de vulgaridade. Ninguém tirava o pó compacto da bolsa no meio do restaurante.

As mulheres se maquiavam escondido, no banheiro. Isto é, quando se maquiavam.

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As melindrosas (versão brasileira das flappers) mudaram esse roteiro por completo. Elas carregavam espelho portátil, pó compacto, blush e batom na bolsa. Além disso, retocavam tudo em público de propósito.

O gesto fazia parte da performance. A sociedade da época, no entanto, enxergava outra coisa: falta de decoro.

4. Ir à praia de maiô

Aqui a coisa fica séria. No Rio de Janeiro, a polícia patrulhava a areia com fita métrica na mão.

Os guardas mediam o comprimento dos maiôs das banhistas. E não se trata de força de expressão: registros históricos das campanhas policiais entre 1920 e 1950 citam repetidamente essas fitas métricas.

As campanhas de “moralização” miravam principalmente Copacabana e Ipanema. Inclusive, as autoridades organizaram uma delas às vésperas da Exposição do Centenário da Independência.

O motivo surpreende. Elas temiam que o excesso de pele à mostra causasse má impressão nos turistas estrangeiros.

Por outro lado, a polícia não perseguia só as mulheres. Os homens levavam abordagem com ainda mais frequência, principalmente os que tiravam a camiseta.

Em 1931, o jornal Beira-Mar estampou uma reclamação em primeira página:

anemiando a mocidade das nossas praias

Manchete do jornal Beira-Mar, de 8 de março de 1931, criticando as campanhas policiais nas praias.

5. Ficar bronzeado

Hoje o bronzeado sugere férias e vida boa. Há 100 anos, ele dizia exatamente o oposto.

A pele marcada pelo sol denunciava trabalho rural, ou seja, denunciava classe social. Para a elite, portanto, o sol na pele resultava em feiura.

Coco Chanel virou esse jogo em 1923, quando voltou de uma temporada na Riviera Francesa com a pele bronzeada.

Segundo relatos, o bronzeado teria surgido por acidente, durante uma exposição ao sol em uma viagem de iate.

De repente, o símbolo se inverteu. A partir dali, quem exibia bronzeado sinalizava dinheiro para viajar.

6. Mulher fumar em público

O cigarro na mão de uma mulher, no meio da rua, funcionava como provocação declarada.

As flappers popularizaram o hábito de fumar em público, muitas vezes com longas piteiras. Assim, elas consolidaram a fama de rebeldes da época.

Vale notar a ironia. Hoje a discussão sobre cigarro gira em torno da saúde. Naquela época, no entanto, o problema não morava no pulmão. Morava no “atrevimento”.

7. Mulher dirigir automóvel

Sentar ao volante também entrava na lista das transgressões.

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As melindrosas dirigiam automóveis, e esse detalhe aparece em praticamente toda descrição histórica do grupo, ao lado de fumar, beber e dançar.

O motivo é simples. O carro entregava mobilidade e privacidade, ou seja, entregava liberdade.

E a liberdade feminina, naquele contexto, formava o próprio escândalo.

8. Sair de casa sem acompanhante

Circular sozinha pela cidade quebrava as regras. O costume exigia a companhia do pai, do marido ou do irmão.

Pesquisas sobre as melindrosas brasileiras, no entanto, mostram outra realidade. Elas andavam sem a presença masculina da família e frequentavam chás, confeitarias, cafés, lojas de departamento e festas.

Hoje a gente chama isso simplesmente de “sair”. Os colunistas conservadores da época, por outro lado, usavam palavras bem menos gentis.

9. Dançar jazz e charleston

Os críticos acusavam o charleston e o jazz de provocação em forma de dança.

Um detalhe específico, aliás, tirava os moralistas do sério: o joelho aparecendo durante os passos.

Isso porque os vestidos da época seguiam um corte reto e solto, na altura do joelho. Com o movimento, portanto, o tecido subia.

O escândalo, no fim das contas, nem morava na música. Morava na rótula.

10. Ter uma tatuagem

A tatuagem atravessou boa parte do século XX carregando um estigma pesado: o de marca de criminoso.

A ciência e a imprensa da época ligavam o corpo tatuado ao desvio e à criminalidade. Além disso, sugeriam uma suposta falha moral em quem se tatuava.

Uma reportagem do Correio Paulistano, de 1909, tratava a prática como algo típico de determinados grupos:

comumente observada nos marinheiros, nas prostitutas e especialmente nos indivíduos predispostos ao crime

Trecho do Correio Paulistano (1909), citado em pesquisa acadêmica sobre a criminalização da tatuagem.

Por outro lado, hoje a tatuagem virou item de moda e expressão pessoal, com estúdio em shopping center. A percepção, portanto, mudou de forma radical.

11. Se divorciar

Este talvez seja o item mais impressionante da lista. Afinal, ele não fala só de costume. Ele fala de lei.

O Brasil só instituiu o divórcio em 1977, com a Emenda Constitucional 9 e com a Lei 6.515, a chamada Lei do Divórcio.

Antes disso, o casamento seguia juridicamente indissolúvel. Existia apenas o “desquite”, que separava os corpos e os bens sem desfazer o vínculo matrimonial.

Na prática, isso gerava três consequências pesadas:

  • quem se desquitava não podia casar de novo no civil
  • os filhos de uma nova união entravam na lei como ilegítimos
  • a nova relação simplesmente não tinha respaldo legal
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Um dado ajuda a medir o atraso. Em 1977, entre os 133 Estados-membros da ONU, apenas outros cinco países ainda não reconheciam o direito ao divórcio. O Brasil, inclusive, era um deles.

12. Mulher votar

O Brasil garantiu o voto feminino em 1932, com o Decreto 21.076, que instituiu o Código Eleitoral.

Ou seja: há exatos 100 anos, as mulheres brasileiras ainda não votavam.

A Constituição de 1934 incorporou o direito, mas ainda de forma facultativa. Somente em 1965, portanto, o voto feminino ganhou o mesmo peso do masculino.

13. Escrever com a mão esquerda

Se você é canhoto, seus bisavós provavelmente não tiveram essa escolha.

Até meados do século XX, professores e famílias obrigavam muitas crianças canhotas a escrever com a mão direita. O motivo soa absurdo hoje: a esquerda carregava fama de mão errada.

O preconceito, aliás, atravessou séculos. Em períodos anteriores, a sociedade chegou a associar o uso da mão esquerda à bruxaria.

Hoje a ciência já explicou o assunto. A lateralidade depende da dominância cerebral e ninguém escolhe qual mão usar. Forçar a troca, inclusive, pode atrapalhar o aprendizado da criança.

14. Mulher jogar futebol

Vale abrir um parêntese neste item. A proibição formal chegou um pouco depois dos anos 1920.

Ainda assim, ela mostra bem até onde ia a régua moral da época. Um decreto de 1941 proibiu o futebol feminino no Brasil, e o país só derrubou essa proibição em 1979.

Por fim, junte esse dado a outro. A mulher brasileira só ganhou o direito de escolher se usaria ou não o sobrenome do marido em 1977, com a Lei do Divórcio.

O que essa lista revela

Olhando as 14 situações em conjunto, um padrão salta aos olhos.

Quase todo escândalo esbarrava na mesma questão: autonomia. Autonomia para se vestir, se locomover, trabalhar, votar e escolher com quem ficar.

Inclusive, o que hoje soa absurdo movia a sociedade da época com toda seriedade. O costume virou lei, virou multa e virou fita métrica na areia da praia.

E nada disso aconteceu num passado tão distante assim. Muita gente que viveu essas mudanças, aliás, ainda está por aí para contar.

E você, qual desses te chocou mais? Conta aqui nos comentários e marca aquele amigo que ia parar na delegacia por ir à praia em 1925.

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