Da semente de melancia que virava planta na barriga ao chiclete que ficava sete anos no estômago. A ciência já derrubou todas essas histórias, mas elas continuam firmes na cabeça de muita gente.
Existem mentiras que nos contaram na infância que simplesmente não morrem. Pais, avós, tios e professores repetiam essas frases para acalmar birra, evitar acidente ou fazer a criança comer legume. O problema é que muitos desses mitos infantis atravessaram gerações e viraram “fato” sem que ninguém checasse nada.
Em primeiro lugar, vale dizer: quase sempre a intenção era boa. Por outro lado, algumas dessas crenças resistem até hoje em conversa de adulto. Reunimos 16 delas e, principalmente, o que a ciência realmente diz sobre cada uma.
1. “Nós só usamos 10% do cérebro”
Esse é o campeão absoluto. A ideia de que existiria um potencial cerebral adormecido aparece em filmes, palestras motivacionais e propaganda de curso. No entanto, ela não tem respaldo na neurociência.
Exames de imagem mostram que o cérebro é um órgão altamente ativo, inclusive em repouso. Além disso, décadas de pesquisa mapearam regiões ligadas à visão, linguagem, memória, movimento e atenção. Ou seja, não existem grandes áreas biologicamente inúteis esperando para ser “desbloqueadas”.
Vale lembrar que lesões pequenas podem afetar fala, visão ou tomada de decisão. Se 90% do cérebro fosse dispensável, isso simplesmente não aconteceria.
2. “Açúcar deixa a criança hiperativa”
Quem nunca ouviu que doce em festa de aniversário “liga” as crianças? Pois é. Uma metanálise publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA) revisou 23 estudos e concluiu que o açúcar não afeta o comportamento nem o desempenho cognitivo infantil.
Em estudos duplo-cegos, nem pais, nem crianças, nem pesquisadores sabiam quem havia recebido açúcar ou placebo. Resultado: nenhuma diferença de comportamento. Inclusive, em alguns testes os pais classificaram os filhos como mais agitados apenas por acreditarem que eles tinham comido doce.
não há associação, nenhuma
A avaliação é de Mark Corkins, presidente do Comitê de Nutrição da Academia Americana de Pediatria, em entrevista à National Geographic Brasil. O que explica a agitação, então? O ambiente. Festa, empolgação e quebra de rotina fazem o trabalho sozinhas.
Atenção: isso não libera geral. O excesso de açúcar adicionado segue associado a cárie, obesidade e outros problemas de saúde.
3. “Chiclete engolido fica sete anos no estômago”
O terror de toda criança que engolia goma sem querer. A verdade é bem menos dramática. O corpo humano realmente não tem enzimas capazes de digerir a goma-base do chiclete, feita de elastômeros, resinas e ceras.
Entretanto, não digerir é diferente de ficar preso. O chiclete percorre o trato digestivo inteiro e é eliminado nas fezes em cerca de um a dois dias, do mesmo jeito que outros alimentos não digeríveis.
ele passará pelo estômago, chegará ao intestino e sairá inalterado
Quem explicou foi Simon Travis, professor de gastroenterologia clínica na Universidade de Oxford, em reportagem da CNN Brasil. Por outro lado, o cuidado com crianças pequenas é real: em casos raros, engolir grande quantidade pode causar obstrução, e há risco de engasgo.
4. “Cenoura dá visão noturna”
Esta talvez seja a mentira mais bem-sucedida da história. Ela nasceu na Segunda Guerra Mundial, e não na cozinha da sua avó.
Em 1941, o Ministério da Alimentação do Reino Unido criou o personagem Doutor Cenoura para estimular o consumo de um legume fácil de cultivar em um país sob racionamento. Cartazes espalhados pelo território associavam a hortaliça à visão dos pilotos da Royal Air Force. Segundo a versão mais difundida, a campanha também servia para disfarçar o uso do radar, tecnologia recém-desenvolvida que permitia abater aviões alemães à noite.
E a parte verdadeira? A cenoura é rica em betacaroteno, que o corpo converte em vitamina A, nutriente fundamental para a saúde ocular. A falta dela pode levar à cegueira. Comer mais cenoura, porém, não concede superpoderes no escuro.
5. “Cachorro enxerga em preto e branco”
Pode parar de ter pena do seu cão. Os cães são dicromatas: possuem dois tipos de cones na retina, enquanto nós temos três.
Na prática, eles enxergam cores, só que em uma paleta mais limitada. O mundo canino é dominado por tons de azul, amarelo e cinza, e o vermelho aparece desbotado ou confuso. Em compensação, a quantidade maior de bastonetes garante melhor visão em pouca luz e uma percepção de movimento mais rápida que a nossa.
Dica prática: brinquedo azul ou amarelo é bem mais visível para ele do que aquela bolinha vermelha no gramado.
6. “Sentar perto da TV estraga a vista”
Clássico do domingo à tarde. Sentar colado na televisão não prejudica a visão.
O mito provavelmente vem dos televisores coloridos da década de 1960, que emitiam quantidades inseguras de radiação. Os aparelhos mudaram completamente desde então, mas o aviso continuou sendo repetido em casa.
7. “Se fizer careta e bater um vento, o rosto fica assim”
Confesse: você já parou de fazer careta com medo disso. A ameaça, porém, não faz sentido nenhum.
Nossos músculos faciais são elásticos e sempre voltam ao estado normal. Nenhuma corrente de ar tem o poder de congelar uma expressão no lugar.
8. “Se cruzar os olhos, eles ficam presos assim”
Mesma lógica, mesmo resultado. Os músculos dos olhos podem cansar depois de permanecerem cruzados por muito tempo, mas eles nunca ficam travados naquela posição.
Ou seja, a criança pode continuar fazendo graça no espelho sem risco de virar vesga para sempre.
9. “Raspar o pelo faz nascer mais grosso”
Esse aqui engana muita gente até hoje, inclusive adulto. Depois de raspar, a base naturalmente mais espessa do folículo piloso começa a crescer primeiro.
Isso cria a ilusão de um fio mais grosso e mais escuro. No entanto, o pelo não é realmente mais grosso do que era antes. Muda a percepção, não a estrutura.
10. “Se tocar num filhote de passarinho, a mãe abandona”
Talvez a mais bonitinha da lista, e também uma das mais equivocadas. As mães aves não abandonam os filhotes por causa de “cheiro humano”.
O motivo é simples: os pássaros têm olfato muito pobre e são incapazes de diferenciar aromas dessa forma. Ainda assim, manipular animais silvestres não é boa ideia. Em caso de filhote caído, o recomendado é acionar órgãos ambientais ou centros de fauna da sua cidade.
11. “Engoliu semente de melancia? Vai nascer um pé na barriga”
Provavelmente ninguém leva essa a sério depois dos oito anos. Mesmo assim, ela aparece em quase toda lista de mentiras contadas para criança.
O estômago não é terra, não tem luz e não oferece nenhuma das condições necessárias para uma semente germinar. Ela apenas segue o trajeto digestivo e vai embora como qualquer outro resíduo.
12. “Tem que esperar uma hora depois de comer para entrar na piscina”
Regra de ouro de todo verão brasileiro. Só que ela não se sustenta como perigo de morte.
Um documento de 2013 da International Life Saving Federation aponta que não há evidência de que comer antes de nadar aumente o risco de afogamento. Especialistas ouvidos pela imprensa internacional seguem a mesma linha.
Por outro lado, existe uma parte verdadeira. Esforço físico intenso logo após uma refeição pesada pode causar desconforto, náusea, refluxo e câimbras, segundo gastroenterologistas. Nada que se compare ao mito, mas o incômodo é real. E vale reforçar: afogamento é um problema sério, e o que protege de verdade é supervisão de adultos e aprender a nadar.
13. “Ler no escuro estraga a vista”
Quem lia embaixo do cobertor com lanterna vai gostar dessa. Ler com pouca luz não causa dano permanente aos olhos.
não provoca nenhum dano imediato nos olhos, nem tem nenhum efeito a longo prazo
A explicação é do oftalmologista João de Deus, presidente da Associação Europeia dos Médicos Hospitalares, em entrevista ao portal Viral. Com menos claridade, o contraste entre a letra e o papel diminui, o que exige mais esforço. O resultado é cansaço visual e, às vezes, dor de cabeça. Nada disso, porém, provoca miopia ou qualquer doença ocular.
14. “A gente perde a maior parte do calor pela cabeça”
Toda mãe já falou isso na hora de colocar touca. A origem do mito, inclusive, é bem documentada.
Ela remonta a um experimento do exército dos Estados Unidos nos anos 1950. Os voluntários usavam trajes especiais contra o frio extremo, mas ficavam com a cabeça descoberta. Naturalmente, o calor saía por ali. O dado virou recomendação em manuais militares e escapou do contexto.
A perda de calor depende sobretudo da área de superfície exposta, e a cabeça representa cerca de 10% do corpo. Além disso, cabeça, rosto e peito são bem mais sensíveis a variações de temperatura, o que reforça a sensação. Moral da história: cubra a cabeça, sim, mas não só ela.
15. “Um ano de cachorro equivale a sete anos humanos”
A conta é simples demais para ser verdadeira. O envelhecimento canino não é linear: os cães amadurecem muito rápido no início da vida e desaceleram depois.
De acordo com a Associação Americana de Medicina Veterinária, o primeiro ano de um cão de porte médio equivale a cerca de 15 anos humanos. O segundo ano acrescenta aproximadamente 9 anos. A partir daí, cada ano vale algo entre 4 e 5, variando conforme porte e raça.
Vale lembrar que cães pequenos costumam viver bem mais que os de grande porte. Ou seja, não existe fórmula única.
16. “Uma moeda jogada de um prédio alto pode matar alguém”
Fechamos com um mito que rende discussão em mesa de bar até hoje. A física explica por que ele não se sustenta.
Todo objeto em queda atinge uma velocidade terminal, ponto em que a resistência do ar equilibra a força da gravidade. A moeda é leve e tem formato plano, então ela balança durante a queda em vez de descer como uma flecha. A energia do impacto fica muito abaixo do necessário para causar um ferimento grave.
O mito chegou a ser testado no programa “Caçadores de Mitos” (“MythBusters”), que também não encontrou potencial letal. De todo modo, jogar qualquer coisa do alto de um prédio continua sendo uma péssima ideia.
E aí, em quantas dessas você acreditou?
Se você chegou até aqui e descobriu pelo menos duas mentiras da infância que ainda repetia, parabéns: você acabou de atualizar o sistema. E convenhamos, algumas delas eram genialmente eficazes.
Agora conta pra gente nos comentários: qual dessas você jurava que era verdade? Marca também aquele amigo que ainda avisa todo mundo para não entrar na piscina depois do almoço.

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